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Assistencialismo ou investimento social? PDF Imprimir
Artigos - Responsabilidade Social
Escrito por Cecilia Studart Guimarães   
Seg, 13 de Outubro de 2008 19:51

Alguns dias atrás me questionaram se eu via alguma diferença entre os benefícios de uma ação de caridade e os de um investimento social. Respondi que não via diferenças pelo simples fato de elas não serem, ao meu ponto de vista, comparáveis. Vocês já imaginaram analisar a diferença que as verduras trazem de benefício para nosso corpo em comparação com o benefício dos grãos e cereais? Ambos nos trazem benefícios diferentes e fica impossível justificar um benefício como melhor do que o outro.


Nesse sentido, precisaríamos focar a diferença das intenções dessas duas modalidades: Enquanto o foco dos investimentos sociais é gerar mobilidade social e transformação social, não é essa a intenção das ações de caridade, mas sim a de possibilitar a satisfação das necessidades essenciais à sobrevivência de um ser humano. Sendo assim, existem algumas situações em que somente este último tipo de ações pode ser levado a cabo, como por exemplo, quando se trata de uma comunidade vítima de calamidade natural ou populações abaixo da extrema pobreza. Nelas, o famoso preceito de “ensinar a pescar, em lugar de dar o peixe” ajuda muito pouco, pois com fome e sem teto, fica difícil ‘pescar’. Uma vez sem fome e com teto, é possível ensinar a pescar. É a isso que se referem vários autores quando indicam que as ações assistencialistas ou de caridade devem ser um meio, para poder depois transformar ou gerar mobilidade.


No entanto, quando as ações de caridade viram um fim em si mesmo, ainda quando a situação não é mais de calamidade, nem de extrema pobreza, aí sim, acabam ajudando mais aos doadores, pela “paz” psicológica que lhes outorga uma esmola, do que as próprias populações beneficiadas. Para estas populações, a caridade só perpetua miséria, pois não modifica a condição social em que se encontram naquele momento, nem trabalha para evitar que nas décadas conseqüentes a esta, esta situação social se repita.


Desenvolver negócios com responsabilidade social, então, não significa gerar recursos financeiros com negócios lucrativos e depois depositar esmolas para outros seres humanos menos “favorecidos”. Desenvolver negócios com responsabilidade social significa perceber que o lucro deve ser de todos, do negócio e do social. E fomentar lucro social não é outra coisa que não fomentar transformação de condições sociais existentes.Em outras palavras, significa gerar mobilidade social. Esta fusão entre o lucro financeiro e o social funciona melhor quando todo o “core”, ou seja, o foco da empresa, sua experiência, seus recursos técnicos e seu diferencial de mercado, estão a disposição, tanto da geração de riquezas financeiras, como direcionadas às suas ações sociais.


É o caso de empresas de equipamentos informáticos, trabalhando com inclusão digital; empresas de cosmética que se utilizam de matérias primas e essências da natureza, trabalhando para sua preservação; empresas de construção civil, trabalhando para projetos habitacionais; empresas bancárias trabalhando com micro crédito; fabricantes de preservativos, mobilizando jovens para a prevenção do HIV/AIDS; e, agora, mais recentemente, uma associação de distribuidores e atacadistas, que se utiliza da capilaridade dos seus sistemas de distribuição para a promoção do desenvolvimento social sustentável.


Ter em conta a diferenciação de intenções da caridade assistencialista e do investimento social, e definir claramente também qual é a intenção da instituição no momento de formatar as ações sociais (assistencialismo ou investimento social), traz clareza e gestão para as ações e maior eficácia dos recursos alocados. Se a escolha for pelo investimento, a sugestão é priorizar instrumentos que facilitem a aplicação estratégica de conceitos e ferramentas já avaliadas no âmbito social. Assim como nos grandes negócios e estratégias comerciais, o lucro é programado no longo prazo e as variáveis são cautelosamente estudadas para minimizar possíveis perdas ou estagnação de capital. Também na área social, o lucro de um investimento social é programado para o longo prazo, e resultados em poucos meses são praticamente impossíveis. Ainda, a análise criteriosa das variáveis do mercado social em que se atua, tem a capacidade de maximizar os investimentos sociais e nos trazer resultados concretos e estatísticos da redução das iniqüidades sociais que uma estratégia social gerou.

 

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